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Letters and words

Letters and words

A beacon of light

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Caro Leitor, 

este livro foi a minha primeira leitura da obra de Virginia Woolf. Nunca tinha lido nada de Woolf e a curiosidade surgida há tempos, de modo intermitente, fora apagada por outras curiosidades e outras leituras. 2016 foi o ano em que finalmente ingressei na obra da escritora, empenhada em ler clássicos ainda não lidos.

Não é um livro de leitura fácil, não querendo dizer que seja de difícil compreensão. É um livro complexo, visionário na altura e ainda hoje. É daqueles livros que merecem uma segunda leitura, como aqueles filmes que tanto adoro e cujas reviravoltas mudam a nossa perceção do enredo, exigindo, por isso, um segundo visionamento.

Os parcos diálogos que se perdem no vasto mar de reflexões, observações e pensamentos, a ação que lentamente parece não se desenvolver, tudo isto poderia facilmente afastar os leitores, como a ideia de mau tempo afasta as personagens da visita ao farol. Estas características quase me afastaram - mas eu não cedo tão facilmente, afinal são escassos os livros cuja leitura abandonei a meio. Mas como depois de tanta dificuldade surge a recompensa, garanto que a recompensa que deste livro se tira vale bem a pena. Das trevas sempre nasce a luz, por mais fugaz que seja...

Enquanto lia a história, por entre pausas de trabalho e momentos de lazer, imaginava muitas vezes que estava a ver uma peça de teatro onde as diferentes cenas iam dando lugar a outras através do movimento rotativo do palco. Por isso, foi giro ter lido algures, após a leitura do livro, que as mudanças bruscas de cenário, de personagem, refletem a luz rotativa do farol que bruscamente surge e bruscamente desaparece.

Deixar que a consciência tomasse as rédeas e que se impusesse ao longo de todo o livro não deverá ter sido tarefa fácil para a escritora, nem para o leitor. E por isso o livro é surpreendentemente inteligente, inovador e encantador. É surpreendente. 

Há uma dramatização da década de 80 desta obra com Kenneth Branagh, entre outros atores, mas como se trata de um filme televisivo será difícil ter acesso.

De qualquer modo, a leitura da obra recomenda-se vivamente. Por isso, caro leitor, não deixe que umas nuvens iniciais num primeiro momento de leitura o afastem do livro - o mau tempo afasta os personagens do farol num primeiro momento, mas até eles acabam por chegar ao farol.

P.S. A propósito desta minha incursão por Virginia Woolf, estou a acabar de ler, também de Virginia Wolf, A Room Of One's Own - um ensaio sobre as mulheres na ficção, como escritoras e personagens - e tem sido uma "delightful experience". É um ensaio que mais parece uma narrativa, com direito a narrador e personagem. A visão e o discernimento que Virginia Woolf  mostra na procura de respostas, mas também no levantamento de questões sobre as mulheres na ficção até à data em que escreve denotam a sua inteligência e o seu carácter ímpar. As questões colocadas e respostas apresentadas são tão inteligentes e ao mesmo tempo tão simples como a própria história do ovo de Colombo. 

 

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