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Letters and words

Letters and words

A Visita augurada

 

Caro leitor,

Como grande fã de cinema - com manias de cinéfila - com um particular gostinho pelos thrillers ou pelos filmes com um twist, encontrei em M. Night Shyamalan (e aqui confesso que sou um pouco como o Jesus quando pronuncia o nome do treinador do FCP) um ídolo. Não há, ou não havia até então, director/escritor/guionista mais adepto dos twists, que os prometesse e cumprisse "on cue".

Para além de um realizador que sabe usar os planos da câmara em seu proveito e com eles aumentar a intensidade narrativa, Mr. Night é um escritor criativo, surpreendente, out-of-the-box e tão enigmático quanto o seu nome. Ou era.

Os primeiros filmes por ele realizados e escritos são disso exemplos. Mesmo que o enredo não seja particularmente inovador, o modo como ele escolhe narrar a história é surpreendente. Quem não se lembra do twist do "The Sixth Sense", quando descobrimos que o Dr. Malcom é um fantasma e que muitas das coisas que Cole dissera ao longo do filme ganham agora, no momento de descoberta, um novo sentido? Confesso que aqui tive um "sexto sentido" e descobri a meio do filme o twist, mas mesmo assim o filme causou impressão. Quantos de nós, depois de ver o filme, não repetimos "I see dead people" a jeito de graçola?

Depois seguiu-se "Unbreakable", - um história aparentemente normal mas com um twist que nos fazia sobrevoar o universo dos super-heróis. A ideia do herói e do vilão aprofundada no filme foi brilhante - básica e clara e "right there, in your face" como o ovo de Colombo. Com o filme "Signs", os amantes de cinema e fãs de Shyamalan não ficaram desapontados. E quem não se lembra da cena da pequenita e adorável Abigail Breslin e do copo de água? Adorable! https://www.youtube.com/watch?v=aO7yO24g-Xs

Depois veio "The Village", para alguns o começo do fim, para mim ainda o crescendo. O twist final passou despercebido para alguns. Muitos o esmiuçaram e ridicularizaram. Eu achei brilhante e defendi o realizador/escritor. Nada apontava para o twist e mesmo depois de revelado o enredo continuava a fazer sentido - os guionistas de "Lost" poderiam ter aprendido algo com esta reviravolta.

E neste crescendo fui-me deixando embalar, sempre expectante pelo próximo filme do realizador, pelo próximo twist, pela próxima "cameo " (breve aparição, ás vezes despercebida, de uma celebridade) do realizador.

But it wouldn't last. Veio "Lady in the water" e "The happening" e o meu entusiasmo esmoreceu. Depois disso, já não tive paciência para ver "The Last Airbender" e "After Earth". "Devil" teve interesse, mas M. Night Shyamalan só concebeu a história - delegou a escrita do guião e a realização para outros.

Esqueci por momentos M.N.S. e há pouco tempo o nome voltou à baila com a série Wayward Pines, ainda que apenas como produtor e realizador de um dos episódios. Mais uma série que prometia muito e acabou por não cumprir.

O regresso de M.N.S. à escrita, à realização e ao "big screen" acontece este ano com "The Visit". É um regresso, mas não um "comeback". O filme é decepcionante. Pega no conceito batido de filmagem caseira/documentário e nem mesmo a piada sobre o próprio conceito tem piada. A ideia do twist é poderosa, mas o filme é penosamente aborrecido. As interpretações dos jovens atores soam "phony" (falsas) e se houvesse algo que salvasse o filme seriam as interpretações dos veteranos que desempenham os avós. Mas nada salva o filme. Cairá M. Night no esquecimento? No meu, pelo menos?