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Letters and words

Letters and words

Circuito Edward Norton - The Painted Veil

Caro Leitor,


Sempre gostei do ator Edward Norton. Desde os tempos do Primal Fear.


Esta primeira carta, de uma série de 5 que visa dar relevo ao ator e retomar a minha escrita aprofundada sobre a sétima arte, dá destaque a um filme que vi há pouco tempo. The Painted Veil, filme de 2006, foi uma revelação para mim, por inúmeras razões. Destaco a atuação dos atores, a interessante trama de Somerset Maugham (cujo livro lerei em breve para estabelecer comparações), a fotografia, os diálogos, as opções do realizador, a banda sonora, o guarda-roupa e a nível pessoal, o que despertou em mim...


China 1925


O filme começa com a sensação de afastamento, de falta de comunicação, de estranhamento. De costas voltadas, as personagens dão-nos as boas vindas à trama, que promete.

 

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A acção inicia-se "in media res", a meio da história dos dois, e o sentimento negativo que paira livremente no céu aberto da China campestre, sentimento que os une e afasta simultaneamente, é apenas o sentimento que abunda nesta fase da vida em que se encontram. A média rés parece querer sugerir que no início não fora assim e que assim não acabará. Aqui o filme é muito mais poético e belo do que o livro, que apesar de começar também em média rés, pelo menos das breves linhas que li, não começa no mesmo ponto.
Minutos depois, somos transportados para o passado. A analepse servirá o seu propósito: apercebemo-nos de como se conheceram as duas personagens, dois anos antes, e das suas características mais notórias e que serão fundamentais para a sua ruína. É-nos dado a vislumbrar apenas os dois primeiros encontros dos dois e ficamos assim em suspense, por pelo menos por mais uns segundos. Enquanto espetadores, vamos recebendo as peças do puzzle e tentamos encaixá-las para fazer sentido da história, que queremos já que acabe bem.

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O primeiro longo diálogo entre os dois, que é também o pedido de casamento, é deliciosamente retratado. O realizador escolhe um plano aproximado, porque afinal o que interessa são as diferentes e diversas emoções espelhadas nos seus rostos (o nervosismo, a surpresa, a urgência sentida, a incredulidade, o desapontamento).

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The Painted Veil é a história de um amor idealizado.
É a história de um homem que se apaixona por uma mulher que não conhece verdadeiramente. Um homem que escolhe deliberadamente ignorar as fofocas e agarrar-se à idealização que cria desta mulher, da vida que poderão ter. Um homem que julga que a convivência trará o amor e que o amor trará a reforma de caráter.
É a história de uma mulher que se casa com um homem que não conhece cedendo às exigências da época, ao desejo de evasão de uma casa castradora e de uma família reprovadora. Uma mulher que aprende com os erros e deixa que o amor a reforme.
É uma história de amor que começa ao contrário. Primeiro casam-se as personagens, sem verdadeiramente se conhecerem, cegos pelas fantasias criadas, e depois vão aprendendo os traços dos outros e apaixonando-se verdadeiramente um pelo outro.
Ainda em analepse, o filme retrata os primeiros dias de casamento, para mostrar as convenções da época, o nervosismo e a timidez de Walter na noite de núpcias, a mente aberta e já inovadora de Kitty, o contentamento dele em a ver feliz e o momento em que Kitty se deixa seduzir por Charlie - claramente o causador de toda aquela indiferença inicial.
Destaco a cena da confirmação da traição. Aqui brilha Edward Norton na calma que empresta a Walter após ter descoberto a traição da mulher, mas também no agravamento da sua expressão quando comprova que Kitty não quer ir com ele, como aliás antecipara, ou quando lhe explica que deve ir para o reconfortar e o alegrar - momento em que nos apercebemos que ele sabe da traição. Ah, a ironia nos seus olhos cheios de desalento!
A primeira parte do filme centra-se na punição que Walter quer infligir a Kitty, na sua insensibilidade ao sofrimento desta, na frieza intencional dele. Mas não é apenas Kitty que recebe esta frieza. Também Walter a recebe dos populares e do general Yu. Ambos se sentem inúteis na aldeia, mas à medida que o doutor vai fazendo progressos e se aproxima dos populares e estes o vêem com outros olhos, também a distância entre o casal diminui, até constatarem que ambos erraram ao procurarem no outro qualidades que o outro não tinha. O véu que lhes toldava a visão cai.


O realizador John Curran fez belíssimas opções na minha opinião: a cena de abertura é a cinematograficamene bela e simbólica. A cena do jantar é deliciosa - nunca uma rodela de cenoura foi tão dramaticamente usada, nunca gostei tanto de ver alguém comer uma cenoura.
Outras cenas poderiam ainda ser destacadas. A cena cómica durante a contagem dos passos pelos campos chineses, a breve cena em que a população espera pela chegada da água e Walter surge enquadrado no meio deles como o salvador. O passeio de barco entre os dois.

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A canção À la claire fountaine que surge quase no final, como síntese do que fora vivido é perfeita e atenua o sofrimento, pelo menos do espetador, pois Kitty não a ouvirá.  Para o leitor que não perceba o francês, aqui fica uma versão animada com a letra.
Poderia escrever mais umas linhas sobre o filme, mas esta carta já se alonga. Poderia escrever sobre as impressões que me suscitou, mas essas reservo-me ao direito de as guardar para mim.
Por mais que a minha visão esteja também toldada por véu pintado e na apreciação do filme tenha visto o que lá não está - a interpretação é subjetiva - uma coisa é indiscutível: a beleza da realidade humana retratada no filme.

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