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Letters and words

Letters and words

Rebecca ou Rebecca? Talvez Rebecca.

Caro Leitor,

Talvez não saiba quem foi Daphne du Maurier. Talvez nunca tenha ouvido este nome. No entanto, é muito provável que tenha visto já alguma adaptação para cinema das suas obras ou que conheça, de nome pelo menos, algum dos seus títulos.

Os pássaros, The birds  no seu original, será talvez a obra com a adaptação para cinema mais famosa, graças ao mestre do suspense Alfred Hitchcock . No entanto, não será este o tema desta carta.

Aproveitando este fim de semana prolongado, com a impossibilidade de passear fisicamente, aventurei-me numa viagem já há muito adiada pela mais recente adaptação para o cinema de Rebecca.

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Rebecca, versão 2020, conta com a participação de Lily James, Army Hammer e da fantástica Kristin Scott Thomas. Não quis ler o livro nem ver a primeira adaptação da obra de Maurier antes desta nova adaptação. Já me tinham relatado a desilusão que parece vir ao de cima no final do filme, e por isso quis vê-lo como obra única, independentemente da primeira adaptação, desligado do livro (que, como já referi em inúmeras cartas, leva sempre a melhor), para ver se tinha forças suficientes para se sustentar. 

Há 3 anos vira um documentário sobre a escritora onde falavam brevemente das suas obras e onde salientaram a particularidade deste thriller psicológico onde Rebecca assombra as personagens principais e a própria Mandeley, mansão de Max de Winter, sem nunca aparecer no livro pois já se encontra morta. A actuação de Kristin Stuart Thomas é, como muitos dizem, a tábua de salavação neste naufrágio, principalmente para quem leu o livro e já vira o filme de Hitchcock. Remeto-me para já à adaptação de 2020. As atuações de Hammer e de James não são brilhantes. A fotografia não é espetacular. No entanto, como enredo saído dos finais da década 30 é interessante. Faz lembrar o romance Northanger Abbey de Jane Austen, paródia dos romances góticos,  no modo como somos conduzidos a julgar a personagem masculina e como o nosso olhar atento é direcionado para vários elementos góticos.

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A curiosidade ditou que visse a primeira adaptação para cinema e havendo uma primeira adaptação  desta obra, as comparações são inevitáveis. A adaptação de 1940, pela mão de Hitchcok, conta com a participação de Joan Fontaine e Laurence Olivier. Nenhum deles é brilhante e como era próprio da época há muito exagero na dramatização. Gosto mais das paisagens, das casas na versão mais recente. Gosto também de algumas opções  escolhidas quer pelo argumentista quer pelo realizador, como por exemplo o modo como surge pela primeira vez o tema da morte da primeira Mrs. de Winter, ou o modo como estas opções parecem preencher algumas lacunas de sentido que o primeiro denunciava. Gosto do excesso da chuva na primeira adaptação. Julgo que faz com que a nova Mrs. de Winter se sinta ainda mais deslocada e inferiorizada, apresentada àquela nova casa e àquelas pessoas completamente molhada. Mas gosto mais do toque menos subtil de Mrs. Danvers a Mrs. de Winter quando ambas tentam apanhar a luva caída, nesta ultima adaptação. Prefiro o quadro do antepassado da família de Winter do filme de 2020 pois é mais denunciador do gótico e  serve melhor o propósito do enredo. Também o distanciamento e a agressividade de Max de Winter no filme de 2020 é melhor para criar suspense e dúvida. Quanto a Mrs. Danvers, acho que ambas são fantásticas, mas claro que Kristin, na versão de 2020, consegue ser mais poderosa. No que diz respeito a cenas finais, prefiro a do filme original. 

Assim, entre o primeiro Rebecca e o último Rebecca qual prefiro? Talvez, sem o ter lido, o livro Rebecca. Nothing beats the thrill of a book. Nothing beats the skill of the author.

P.S. Existe ainda uma outra adaptação em mini-série de 1997  que penso só ter visto partes.A título de curiosidade fica aqui um vídeo com as cenas mais emblemáticas desta história, nas três adaptações side-by-side, Rebecca . Cuidado, contém spoilers.

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